Sem teto e sem direito: como a crise habitacional afeta famílias em 12 capitais brasileiras
Às 6h da manhã de uma terça-feira de junho, Dona Maria das Graças, 54 anos, acorda na calçada em frente à antiga casa onde morou por 18 anos, no bairro Camargos, em Belo Horizonte. A casa foi demolida há três semanas por uma ordem judicial, depois que ela perdeu a disputa por uma herança com parentes que ela mal conhecia. Ela tem uma filha de 12 anos e não tem para onde ir.
A história de Dona Maria das Graças não é exceção. É parte de uma crise habitacional que a Visão Clara documentou ao longo de três meses em 12 capitais brasileiras. Famílias despejadas por processos judiciais, por obras públicas ou pela especulação imobiliária que avança sobre bairros populares.
Os números da crise
O déficit habitacional brasileiro chegou a 8,3 milhões de moradias em 2024, segundo a Fundação João Pinheiro. Desse total, 73% estão concentrados nas famílias com renda de até três salários mínimos — exatamente o segmento que tem menos acesso ao crédito imobiliário e que depende de programas habitacionais do governo.
O Minha Casa Minha Vida, relançado em 2023, prometeu construir 2 milhões de unidades até 2026. Até maio de 2025, 340 mil unidades tinham sido entregues — um ritmo que, se mantido, não chegará nem à metade da meta.
"Minha casa era pequena, mas era minha. Eu criei meus filhos lá, enterrei meu marido lá. Quando eles derrubaram, derrubaram mais do que uma parede. Derrubaram minha história."
O que acontece depois do despejo
A reportagem acompanhou 23 famílias despejadas em diferentes capitais ao longo de três meses. O padrão que emerge é preocupante: a maioria não consegue acesso imediato a abrigos públicos, que estão superlotados nas grandes cidades. Muitas famílias acabam em situação de rua por semanas ou meses antes de encontrar uma solução temporária.